sexta-feira, 27 de junho de 2014

O AEE e os modelos pré- estabelecidos

O AEE e os modelos pré- estabelecidos
Valéria Carla Vieira Gomes
            É preciso compreender o todo. O que perpassa nos diversos contextos, para que em seguida possamos compreender as partes, os detalhes.
            É imprescindível ter um olhar acurado, vê o indivíduo em sua integralidade, perceber as potencialidades e as habilidades desse ser. Não apenas suas limitações, suas falhas e suas impossibilidades.
            Ao escrever o texto “ O modelo dos modelos”, que segue abaixo, Ítalo Calvino nos mostra que é necessário dissolvermos as ideias de modelos, de padronizações e homogeneizações. Mas, é preciso ter variáveis de modelos para transformá-lo de acordo com a realidade que nos é tão peculiar e que é tão presente no AEE. Cada indivíduo com suas especificidades, suas potencialidades, habilidades, limitações e impossibilidade de acordo com a sua deficiência, mas com a peculiaridade de sua experiência de vida, seus estímulos e respostas pessoais.
            Portanto, se faz necessário romper com esses modelos pré- estabelecidos e como nos aforma Ítalo Calvino “[...]melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e de princípios subentendidos e não demonstráveis”.
Texto: “O modelo dos modelos” de Italo Calvino:

“Houve na vida do senhor Palomar uma época em que sua regra era esta: primeiro, construir um modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na experiência; terceiro, proceder às correções necessárias para que modelo e realidade coincidam. [..] Mas se por um instante ele deixava de fixar a harmoniosa figura geométrica desenhada no céu dos modelos ideais, saltava a seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram de todo desaparecidos e as linhas do desenho surgiam deformadas e retorcidas. [...] A regra do senhor Palomar foi aos poucos se modificando: agora já desejava uma grande variedade de modelos, se possível transformáveis uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas realidades distintas, no tempo e no espaço. [...] Analisando assim as coisas, o modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter modelos transparentes, diáfanos, sutis como teias de aranha; talvez até mesmo para dissolver os modelos, ou até mesmo para dissolver-se a si próprio.
Neste ponto só restava a Palomar apagar da mente os modelos e os modelos de modelos. Completado também esse passo, eis que ele se depara face a face com a realidade mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”. Para fazer isto, melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e de princípios subentendidos e não demonstráveis. Não é uma linha de conduta da qual possa extrair satisfações especiais, mas é a única que lhe parece praticável”.


domingo, 8 de junho de 2014

ATIVIDADE PARA ALUNOS COM TGD – RECURSOS CONCRETOS DE FÁCIL CONSTRUÇÃO E APLICAÇÃO















Construção textual através de imagens

Sabemos  que  os alunos com TGD apresentam dificuldade em compreender e estruturar ideias  através  de  atividades que promovam o estímulo a esse raciocínio lógico e a concentração. Uma das ferramentas apresentadas por Bez (2014) é o Boardmaker, " um software com banco de dados gráficos que contêm mais de 3500 símbolos de comunicação Pictórica- PCS. Com ele é possível: confeccionar pranchas, localizar e  aplicar símbolos e imagens, trabalhar as imagens em qualquer tamanho e espaçamento, imprimir e /ou salvar tamanho e espaçamento, imprimir e/ou salvar a sua prancha de comunicação, armazenar, nomear, organizar, redimensionar e aplicar espaçamento, imprimir e/ou salvar a sua prancha de comunicação, armazenar, nomear, organizar, redimensionar e aplicar imagens escaneadas, criar folhas de temas ou trabalho, listas de instruções pictóricas, livros de leitura, jornais e pôsteres e acompanhar várias grades prontas de calendários e agendas" (BEZ, 2014, p.1). Mas, quando a escola não possui esse software, o professor pode e deve adequá-lo para proporcionar o aprendizado do aluno. Pois, na maioria das nossas escolas os recursos de alta tecnologia estão indisponíveis por várias situações. E, nós precisamos adaptar as atividades a nossa realidade.

Construção textual através de imagens

Descrição da atividade:

- Construir com o (a) aluno (a) uma espécie de álbum temático através de imagens aleatórias, seja imagens do cotidiano ou a representação de alguma história, que tenham significado para ele.
- Conversar sobre o que representa as imagens escolhidas.
- Solicitar que construa  textos  orais  e  escritos  sobre  as imagens  selecionadas.
- Registrar a produção e expor  as produções.

Intervenções do professor:

            O professor deve ser o articulador das ideias do aluno, especialmente quando o mesmo apresentar maior dificuldade em construir suas ideias. Não  com respostas prontas, mas com o estímulo para que o aluno busque articular as ideias, favorecendo a oportunidade do aluno se comunicar, em seu tempo e com suas peculiaridades.

Referência:
BEZ, M. R. As Tecnologias como signos na perspectiva da Teoria Sócio-Histórica. Curso de AEE - UFC. Disciplina: AEE E TGD. 2014. 

terça-feira, 22 de abril de 2014

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE SURDOCEGUEIRA E DMU – DEFICIÊNCIA MÚLTIPLA










VALÉRIA CARLA VIEIRA 

Nesse pequeno texto, buscamos escrever sobre a  diferença entre surdocegueira e a DMU – Deficiência Múltipla, para a partir dessa diferença compreendermos suas especificidades. A partir de nossas leituras, verificamos que MAIA (2011) traz o conceito de  surdocegueira referindo-se a pessoas que tem perdas visuais e auditivas concomitantes em graus diferentes.
A Surdocegueira pode ser classificada como: surdocegueira total, surdocegueira com surdez profunda associada com resíduo visual, surdocegueira com surdez moderada associada com resíduo visual, surdocegueira com surdez moderada ou leve com cegueira e surdocegueira com perdas leves, tanto auditivas, quanto visuais.
Um aspecto importante sobre a Surdocegueira de nascença ou adquirida refere-se a percepção e comunicação com o mundo. Pois, há a necessidade de mediação de comunicação para receber, interpretar e conhecer o que lhe cerca.
Vale ressaltar ainda que há uma diferença entre a Surdocegueira congênita e a Surdocegueira adquirida, que tanto a criança pode nascer Surdocega ou adquirir nos primeiros anos de vida.
Já na Deficiência Múltipla há uma associação de duas deficiências ou mais. E, é importante frisar que há a necessidade da presença da Deficiência Intelectual associada a qualquer outra deficiência. De acordo com o MEC (2006):

Considera-se uma criança com deficiência múltipla sensorial aquela que apresenta deficiência visual ou auditiva, associada a outras condições de comportamento e comprometimentos, sejam elas na área física, intelectual ou emocional, e dificuldades de aprendizagem. (MEC/SEESP/2006).


Para cada uma dessas deficiências existem especificidades para  comunicar-se e desenvolver a cognição e o esquema corporal. É preciso exercitar a percepção com estímulos externos promovendo maior equilíbrio corporal, tônus muscular movimentação, deslocamento e  coordenação motora.
Para isso, se faz necessário realizarmos atividades que estimulem esses aspectos. Entre elas atividades que promovam uma rotina para os alunos e nela associar a um ambiente que seja reativo, ou seja, que tenha estímulos que responda as suas iniciativas em busca de suprir suas necessidades educativas. Embora, essas crianças tenham necessidades físicas, médicas e emocionais que também necessitam ser supridas.
            Deve haver trabalho em busca da autonomia e independência, desde que seja atividades significativas que desenvolva suas habilidades e potencialidades. Seja através de escrita de textos em braille, ou escrita do alfabeto manual na mão de um interprete ou através da utilização de prancha de comunicação com símbolos e imagens para o auxílio da comunicação e para a busca do desenvolvimento desse aluno.
            Para maior apropriação desses conceitos e conteúdos sugerimos os textos contidos na referência, pois a partir deles é possível ter uma visão mais aprimorada das terminologias, dos conceitos e dos procedimentos necessários para o desenvolvimento desses alunos.

Referência:

Educação infantil : saberes e práticas da inclusão : dificuldades acentuadas de aprendizagem : deficiência múltipla. [4. ed.] / elaboração profª Ana Maria de Godói – Associação de Assistência à Criança Deficiente – AACD... [et. al.]. – Brasília : MEC, Secretaria de Educação Especial, 2006.

Ikonomidi, Vula Maria. Trad.Folheto FACT 3 – COMMUNICATION / Primavera 2005 - Lousiana Department of Education 1.877.453.2721 State Board of Elementary and Secondary Education.


MAIA, Shirley Rodrigues. Aspectos Importantes para saber sobre Surdocegueira e Deficiência Múltipla. São Paulo (2011).

sábado, 8 de março de 2014

As Práticas Pedagógicas para pessoa com surdez: valorizando suas potencialidades.

As Práticas Pedagógicas para pessoa com surdez: valorizando suas potencialidades.

Valéria Carla Vieira Gomes



          Muito se tem discutido sobre questões de inclusão em nossa sociedade, especialmente sobre as questões que versam sobre a pessoa com surdez. Nessa perspectiva, muitos mitos foram sendo formados e que precisam ser desmistificados, entre eles que a pessoa com surdez é uma pessoa deficiente, a pessoa com surdez é sim uma pessoa com limitações biológicas. Mas, que possui capacidades e potencial para desenvolver-se e aprender.
            A esse respeito DAMÁZIO (2010, pág.48) nos afirma:


[...] esse ser não é no todo surdo, mas há uma parte com surdez, que neurobiologicamente, o limita, mas que, em contrapartida, o possibilita e potencializa ao desenvolvimento dos processos neurossensorial-perceptivos. Daí, termos certeza de que os processos perceptivos, lingüísticos e cognitivos das pessoas com surdez poderão ser estimulados e desenvolvidos, tornando-as sujeitos capazes, produtivos e constituídos de várias linguagens, com potencialidade para adquirir e desenvolver não somente os processos visuais-gestuais, mas também ler e escrever as línguas em seus entornos e, se desejar, também falar. Isso nos faz pensar num sujeito com surdez não reduzido ao chamado mundo surdo, com a identidade e a cultura surda, mas numa pessoa com potencial a ser estimulado e desenvolvido nos aspectos cognitivos, culturais, sociais e linguísticos [...]



            A grande questão para refletirmos não é a limitação desses indivíduos, mas sobre a escola e as práticas pedagógicas excludentes, reflexos de uma sociedade que também é excludente. Como acreditar na potencialidade de um aluno surdo, se dentro de minhas convicções e frente a minha formação trago entranhado a questão latente da exclusão?
            Como falar do processo de inclusão desses alunos, se dentro da organização escolar, somente o aluno com surdez tem aula de Libras? Sendo que é tão necessário a esse aluno interagir com os demais no processo educativo, mas os outros o veem como diferente por não falarem a linguagem dos ditos normais? É preciso que a escola em sua prática pedagógica desmistifique essas questões e sua prática voltada para as potencialidades desses indivíduos. É preciso, pois, adotar a Pedagogia Contextual Relacional em que busca a formação do ser humano com base em contextos significativos que busca desenvolvê-lo em todos os aspectos possíveis. Como nos afirma DAMÁZIO (2010, pág.49):


[...] pensar e construir uma prática pedagógica que se volte para o desenvolvimento das potencialidades das pessoas com surdez, na escola, é fazer com que essa instituição esteja imersa nesse emaranhado de redes sociais, culturais e de saberes. É claro que se devem considerar os contornos dessas redes, não com a nitidez das fronteiras territoriais de culturas e identidades, mas como contornos que nos permitam ver as pessoas em suas singularidades e diferenças, cujos contextos reais precisam ser respeitados.


            É preciso compreender e reconhecer o potencial e as capacidades desses alunos independente de sua condição de surdez, são indivíduos que necessitam ser estimulados para o desenvolvimento cognitivo, mas que não há maior impedimento para esse crescimento.
            O processo de respeito as diferenças perpassa pela prática pedagógica do professor, pois quando o mesmo reconhece que para a integração é preciso compreender a heterogeneidade da turma, valorizando a capacidade individual e buscando suprir as necessidades de cada indivíduo único que se encontra em sala, seja ele com surdez ou não.
            É essencial compreendermos que as pessoas com surdez necessitam se apropriar dos atos de produção de textos, sejam eles em qualquer sistema semiótico, tendo domínio da diversidade textual que circula nas práticas sociais que ele está inserido. Pois, o aprendizado deve estar pautado em contextos significativos.
            Portanto, diante de tantas especificidades quanto a questão da inclusão, é preciso redirecionar a prática educativa, pois a maioria das escolas excluem muito mais que incluem. É preciso construir e reconstruir um ambiente receptivo a todos sem distinção, mas para que essa realidade seja possível é preciso que haja a construção de base teórica pra os milhares de professores que não possuem conhecimento adequado e que na maioria das vezes não sabem que posicionamento tomar diante das inúmeras necessidades em sala de aula. Cabe a nós, ouvintes e surdos, mudarmos a história da educação dos surdos em nosso país

Referências:

DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Educação Escolar Inclusiva das Pessoas com Surdez na Escola Comum: Questões Polêmicas e Avanços Contemporâneos. In: II Seminário Educação Inclusiva: Direito à Diversidade, 2005, Brasília. Anais. Brasília: MEC, SEESP, 2005. p.108 – 121. 

__________. Tendências Subjacentes à Educação das Pessoas com Surdez. In: Atendimento Educacional Especializado: Pessoa com surdez. Curitiba: CROMOS, 2007. p. 19-21. 

Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar. Fascículo 05: Educação Escolar de Pessoas com Surdez - Atendimento Educacional Especializado em Construção, p. 46-57.