O AEE e os modelos
pré- estabelecidos
Valéria Carla Vieira
Gomes
É
preciso compreender o todo. O que perpassa nos diversos contextos, para que em
seguida possamos compreender as partes, os detalhes.
É
imprescindível ter um olhar acurado, vê o indivíduo em sua integralidade, perceber
as potencialidades e as habilidades desse ser. Não apenas suas limitações, suas
falhas e suas impossibilidades.
Ao
escrever o texto “ O modelo dos modelos”, que segue abaixo, Ítalo Calvino nos
mostra que é necessário dissolvermos as ideias de modelos, de padronizações e
homogeneizações. Mas, é preciso ter variáveis de modelos para transformá-lo de
acordo com a realidade que nos é tão peculiar e que é tão presente no AEE. Cada
indivíduo com suas especificidades, suas potencialidades, habilidades, limitações
e impossibilidade de acordo com a sua deficiência, mas com a peculiaridade de
sua experiência de vida, seus estímulos e respostas pessoais.
Portanto,
se faz necessário romper com esses modelos pré- estabelecidos e como nos aforma
Ítalo Calvino “[...]melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada
apenas com a memória de fragmentos de experiências e de princípios
subentendidos e não demonstráveis”.
Texto: “O modelo dos
modelos” de Italo Calvino:
“Houve na vida do senhor Palomar uma época em
que sua regra era esta: primeiro, construir um modelo na mente, o mais
perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar se tal modelo se
adapta aos casos práticos observáveis na experiência; terceiro, proceder às
correções necessárias para que modelo e realidade coincidam. [..] Mas se por um
instante ele deixava de fixar a harmoniosa figura geométrica desenhada no céu
dos modelos ideais, saltava a seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade
e os desastres não eram de todo desaparecidos e as linhas do desenho surgiam
deformadas e retorcidas. [...] A regra do senhor Palomar foi aos poucos se
modificando: agora já desejava uma grande variedade de modelos, se possível
transformáveis uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se
adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas
realidades distintas, no tempo e no espaço. [...] Analisando assim as coisas, o
modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter modelos
transparentes, diáfanos, sutis como teias de aranha; talvez até mesmo para
dissolver os modelos, ou até mesmo para dissolver-se a si próprio.
Neste ponto só restava a Palomar apagar da
mente os modelos e os modelos de modelos. Completado também esse passo, eis que
ele se depara face a face com a realidade mal padronizável e não
homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”. Para
fazer isto, melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada apenas com
a memória de fragmentos de experiências e de princípios subentendidos e não
demonstráveis. Não é uma linha de conduta da qual possa extrair satisfações
especiais, mas é a única que lhe parece praticável”.



