As Práticas
Pedagógicas para pessoa com surdez: valorizando suas potencialidades.
Valéria
Carla Vieira Gomes
Muito se
tem discutido sobre questões de inclusão em nossa sociedade, especialmente
sobre as questões que versam sobre a pessoa com surdez. Nessa perspectiva,
muitos mitos foram sendo formados e que precisam ser desmistificados, entre
eles que a pessoa com surdez é uma pessoa deficiente, a pessoa com surdez é sim
uma pessoa com limitações biológicas. Mas, que possui capacidades e potencial
para desenvolver-se e aprender.
A esse respeito DAMÁZIO (2010,
pág.48) nos afirma:
[...] esse ser não é no todo surdo, mas há
uma parte com surdez, que neurobiologicamente, o limita, mas que, em
contrapartida, o possibilita e potencializa ao desenvolvimento dos processos
neurossensorial-perceptivos. Daí, termos certeza de que os processos perceptivos,
lingüísticos e cognitivos das pessoas com surdez poderão ser estimulados e
desenvolvidos, tornando-as sujeitos capazes, produtivos e constituídos de
várias linguagens, com potencialidade para adquirir e desenvolver não somente
os processos visuais-gestuais, mas também ler e escrever as línguas em seus
entornos e, se desejar, também falar. Isso nos faz pensar num sujeito com
surdez não reduzido ao chamado mundo surdo, com a identidade e a cultura surda,
mas numa pessoa com potencial a ser estimulado e desenvolvido nos aspectos
cognitivos, culturais, sociais e linguísticos [...]
A grande questão para refletirmos não
é a limitação desses indivíduos, mas sobre a escola e as práticas pedagógicas
excludentes, reflexos de uma sociedade que também é excludente. Como acreditar
na potencialidade de um aluno surdo, se dentro de minhas convicções e frente a
minha formação trago entranhado a questão latente da exclusão?
Como falar do processo de inclusão
desses alunos, se dentro da organização escolar, somente o aluno com surdez tem
aula de Libras? Sendo que é tão necessário a esse aluno interagir com os demais
no processo educativo, mas os outros o veem como diferente por não falarem a
linguagem dos ditos normais? É preciso que a escola em sua prática pedagógica
desmistifique essas questões e sua prática voltada para as potencialidades desses
indivíduos. É preciso, pois, adotar a Pedagogia Contextual Relacional em que
busca a formação do ser humano com base em contextos significativos que busca
desenvolvê-lo em todos os aspectos possíveis. Como nos afirma DAMÁZIO
(2010, pág.49):
[...] pensar e construir
uma prática pedagógica que se volte para o desenvolvimento das potencialidades
das pessoas com surdez, na escola, é fazer com que essa instituição esteja
imersa nesse emaranhado de redes sociais, culturais e de saberes. É claro que
se devem considerar os contornos dessas redes, não com a nitidez das fronteiras
territoriais de culturas e identidades, mas como contornos que nos permitam ver
as pessoas em suas singularidades e diferenças, cujos contextos reais precisam
ser respeitados.
É preciso compreender e reconhecer o
potencial e as capacidades desses alunos independente de sua condição de
surdez, são indivíduos que necessitam ser estimulados para o desenvolvimento
cognitivo, mas que não há maior impedimento para esse crescimento.
O processo de respeito as
diferenças perpassa pela prática pedagógica do professor, pois quando o mesmo
reconhece que para a integração é preciso compreender a heterogeneidade da
turma, valorizando a capacidade individual e buscando suprir as necessidades de
cada indivíduo único que se encontra em sala, seja ele com surdez ou não.
É essencial compreendermos que as
pessoas com surdez necessitam se apropriar dos atos de produção de textos,
sejam eles em qualquer sistema semiótico, tendo domínio da diversidade textual
que circula nas práticas sociais que ele está inserido. Pois, o aprendizado
deve estar pautado em contextos significativos.
Portanto, diante
de tantas especificidades quanto a questão da inclusão, é preciso redirecionar
a prática educativa, pois a maioria das escolas excluem muito mais que incluem.
É preciso construir e reconstruir um ambiente receptivo a todos sem distinção,
mas para que essa realidade seja possível é preciso que haja a construção de
base teórica pra os milhares de professores que não possuem conhecimento
adequado e que na maioria das vezes não sabem que posicionamento tomar diante
das inúmeras necessidades em sala de aula. Cabe a
nós, ouvintes e surdos, mudarmos a história da educação dos surdos em nosso
país.
Referências:
DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Educação Escolar Inclusiva das Pessoas com Surdez na Escola Comum: Questões Polêmicas e Avanços Contemporâneos. In: II Seminário Educação Inclusiva: Direito à Diversidade, 2005, Brasília. Anais. Brasília: MEC, SEESP, 2005. p.108 – 121.
__________. Tendências
Subjacentes à Educação das Pessoas com Surdez. In: Atendimento Educacional
Especializado: Pessoa com surdez. Curitiba: CROMOS, 2007. p. 19-21.
Coletânea
UFC-MEC/2010: A Educação Especial na
Perspectiva da Inclusão Escolar. Fascículo 05: Educação Escolar de Pessoas
com Surdez - Atendimento Educacional Especializado em Construção, p.
46-57.
