sábado, 8 de março de 2014

As Práticas Pedagógicas para pessoa com surdez: valorizando suas potencialidades.

As Práticas Pedagógicas para pessoa com surdez: valorizando suas potencialidades.

Valéria Carla Vieira Gomes



          Muito se tem discutido sobre questões de inclusão em nossa sociedade, especialmente sobre as questões que versam sobre a pessoa com surdez. Nessa perspectiva, muitos mitos foram sendo formados e que precisam ser desmistificados, entre eles que a pessoa com surdez é uma pessoa deficiente, a pessoa com surdez é sim uma pessoa com limitações biológicas. Mas, que possui capacidades e potencial para desenvolver-se e aprender.
            A esse respeito DAMÁZIO (2010, pág.48) nos afirma:


[...] esse ser não é no todo surdo, mas há uma parte com surdez, que neurobiologicamente, o limita, mas que, em contrapartida, o possibilita e potencializa ao desenvolvimento dos processos neurossensorial-perceptivos. Daí, termos certeza de que os processos perceptivos, lingüísticos e cognitivos das pessoas com surdez poderão ser estimulados e desenvolvidos, tornando-as sujeitos capazes, produtivos e constituídos de várias linguagens, com potencialidade para adquirir e desenvolver não somente os processos visuais-gestuais, mas também ler e escrever as línguas em seus entornos e, se desejar, também falar. Isso nos faz pensar num sujeito com surdez não reduzido ao chamado mundo surdo, com a identidade e a cultura surda, mas numa pessoa com potencial a ser estimulado e desenvolvido nos aspectos cognitivos, culturais, sociais e linguísticos [...]



            A grande questão para refletirmos não é a limitação desses indivíduos, mas sobre a escola e as práticas pedagógicas excludentes, reflexos de uma sociedade que também é excludente. Como acreditar na potencialidade de um aluno surdo, se dentro de minhas convicções e frente a minha formação trago entranhado a questão latente da exclusão?
            Como falar do processo de inclusão desses alunos, se dentro da organização escolar, somente o aluno com surdez tem aula de Libras? Sendo que é tão necessário a esse aluno interagir com os demais no processo educativo, mas os outros o veem como diferente por não falarem a linguagem dos ditos normais? É preciso que a escola em sua prática pedagógica desmistifique essas questões e sua prática voltada para as potencialidades desses indivíduos. É preciso, pois, adotar a Pedagogia Contextual Relacional em que busca a formação do ser humano com base em contextos significativos que busca desenvolvê-lo em todos os aspectos possíveis. Como nos afirma DAMÁZIO (2010, pág.49):


[...] pensar e construir uma prática pedagógica que se volte para o desenvolvimento das potencialidades das pessoas com surdez, na escola, é fazer com que essa instituição esteja imersa nesse emaranhado de redes sociais, culturais e de saberes. É claro que se devem considerar os contornos dessas redes, não com a nitidez das fronteiras territoriais de culturas e identidades, mas como contornos que nos permitam ver as pessoas em suas singularidades e diferenças, cujos contextos reais precisam ser respeitados.


            É preciso compreender e reconhecer o potencial e as capacidades desses alunos independente de sua condição de surdez, são indivíduos que necessitam ser estimulados para o desenvolvimento cognitivo, mas que não há maior impedimento para esse crescimento.
            O processo de respeito as diferenças perpassa pela prática pedagógica do professor, pois quando o mesmo reconhece que para a integração é preciso compreender a heterogeneidade da turma, valorizando a capacidade individual e buscando suprir as necessidades de cada indivíduo único que se encontra em sala, seja ele com surdez ou não.
            É essencial compreendermos que as pessoas com surdez necessitam se apropriar dos atos de produção de textos, sejam eles em qualquer sistema semiótico, tendo domínio da diversidade textual que circula nas práticas sociais que ele está inserido. Pois, o aprendizado deve estar pautado em contextos significativos.
            Portanto, diante de tantas especificidades quanto a questão da inclusão, é preciso redirecionar a prática educativa, pois a maioria das escolas excluem muito mais que incluem. É preciso construir e reconstruir um ambiente receptivo a todos sem distinção, mas para que essa realidade seja possível é preciso que haja a construção de base teórica pra os milhares de professores que não possuem conhecimento adequado e que na maioria das vezes não sabem que posicionamento tomar diante das inúmeras necessidades em sala de aula. Cabe a nós, ouvintes e surdos, mudarmos a história da educação dos surdos em nosso país

Referências:

DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Educação Escolar Inclusiva das Pessoas com Surdez na Escola Comum: Questões Polêmicas e Avanços Contemporâneos. In: II Seminário Educação Inclusiva: Direito à Diversidade, 2005, Brasília. Anais. Brasília: MEC, SEESP, 2005. p.108 – 121. 

__________. Tendências Subjacentes à Educação das Pessoas com Surdez. In: Atendimento Educacional Especializado: Pessoa com surdez. Curitiba: CROMOS, 2007. p. 19-21. 

Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar. Fascículo 05: Educação Escolar de Pessoas com Surdez - Atendimento Educacional Especializado em Construção, p. 46-57.